Na França, alguns preferem não tomar a vacina contra a covid-19 e pagar centenas de euros para obter falsos atestados, enquanto outros, mais radicais, atacam postos de saúde. Apesar de quase 53% da população francesa já ter o ciclo de imunização completo, céticos e antivacinas ameaçam o avanço da campanha no país, em meio a protestos nas ruas que vêm se intensificando nas últimas semanas.

Pelo menos uma dúzia de postos de vacinação foram vandalizados na França, alguns chegaram a sofrer inundações e incêndios. Locais de testes de covid-19 também foram depredados.

Recentemente, a polícia francesa desmantelou redes que falsificavam atestados de vacinação, vendidos entre €250 e €500 (cerca de R$ 1,5 mil e R$ 3,1 mil). Os investigadores puderam identificar, no caso de apenas um grupo, 400 pessoas que haviam obtido o documento sem tomar a vacina.

Algumas gangues vendiam pela internet documentos que seriam facilmente identificados como falsos. Mas há também casos de redes de falsos atestados realizados em postos de vacinação, com a cumplicidade de profissionais do local com acesso aos servidores do sistema de saúde. Eles emitiam comprovantes de vacinação com códigos de barras válidos quando escaneados para pessoas que não se vacinaram.

O atestado de vacinação completa, chamado “passe sanitário”, se tornou um documento vital para ter acesso à maioria dos lugares na França.

Ele é exigido desde 21 de julho em locais culturais, como cinemas e museus, e, a partir de 9 de agosto, será necessário também para ir a restaurantes, bares, hospitais (exceto emergências) e para realizar viagens de longa distância no país por trem ou avião.

No final de agosto, o atestado de vacinação completa se tornará obrigatório também para os adolescentes de 12 a 17 anos.

 

Quarta onda da covid avança na França

A França atravessa a quarta onda de covid-19 por conta da variante delta, que representa 83% das contaminações. A média de novos casos diários saltou de menos de 2 mil no final de junho para mais de 21 mil atualmente.

O número de hospitalizações, inclusive em unidades de terapia intensiva (UTIs), também vem aumentando, mas se mantém muito abaixo do pico das ondas de contaminação precedentes.

Para incentivar a imunização — que havia começado a desacelerar em junho, apesar da alta disponibilidade de doses de vacina no país — o presidente Emmanuel Macron anunciou, em 12 de julho, a ampliação do chamado “passe sanitário” — até então limitado a shows, eventos esportivos ou festivais com um público de mais de mil pessoas — a inúmeros locais culturais e de lazer com capacidade de mais de 50 pessoas.

Aprovado na semana passada pelo Parlamento, o texto que estabelece as novas exigências também prevê a imunização obrigatória de profissionais de saúde até 15 de setembro, sob pena de proibição do exercício das atividades com suspensão de salário.

A obrigatoriedade foi imposta porque cerca de um terço dos profissionais que trabalham em hospitais, clínicas e casas de repouso na França ainda não tomou a vacina contra a covid-19, sete meses após o início da campanha.

Logo após o anúncio do presidente Macron sobre o “passe sanitário”, houve uma corrida na internet para marcar a vacinação contra a covid-19 (2 milhões de agendamentos nas primeiras 48 horas) e o ritmo vem se mantendo elevado.

Ao mesmo tempo, os protestos contra o atestado de vacinação também vêm crescendo no país, apesar do período de férias de verão em que muitas pessoas viajam.

Estima-se que passeatas do último sábado tenham reunido mais de 200 mil pessoas nas ruas do país, sendo cerca de 14 mil em Paris, onde houve confrontos com a polícia. Em 17 de julho, a multidão foi estimada em 110 mil pessoas, e na semana seguinte, em 160 mil.

Essas manifestações, aos gritos de “liberdade”, atraem um público heterogêneo. Há pessoas que se vacinaram, mas são contra as restrições impostas pelo governo, mas há principalmente céticos em relação à vacina contra a covid-19, o que inclui profissionais de saúde, e antivacinas em geral, adeptos de teorias conspiratórias.

Na passeata do último sábado havia cartazes com os dizeres “Covid-19, fraude mundial.” Jornalistas chegaram a ser agredidos em eventos recentes. O presidente Macron é retratado como autoritário e fascista pelos manifestantes.

Os coletes amarelos, ligados a partidos e movimentos de extrema direita e de extrema esquerda – que fizeram vários protestos violentos em 2018 e 2019 na França com uma série de reivindicações – também são vistos nas manifestações contra o atestado de vacinação.

Segundo alguns especialistas, em razão do contágio mais elevado por conta da variante delta, seria necessário imunizar 90% da população para atingir a imunidade coletiva. Atualmente, 63,2% dos franceses recebeu pelo menos uma dose e 52,6% finalizou o ciclo de vacinação.

 

Perfil variado de quem hesita em se vacinar

O estudo “Comportamentos, organizações, vulnerabilidades das populações em tempos de crise”, realizado pelos economistas Olivier Bargain e Florence Jusot, revela que as pessoas hesitantes em relação à vacina contra a covid-19 não têm um perfil específico, com idades, meio social e profissional variados.

Embora tenham menos confiança no governo e na ciência, a oposição desse grupo à vacina não é algo irredutível, segundo os autores do estudo, e muitos devem aderir à vacinação por conta da obrigatoriedade de apresentar um atestado para frequentar diversos locais.

Já os antivacinas se concentram em uma categoria social definida: mais pobre e com menor nível de educação, diz o estudo. Eles são mais céticos, exprimem maior radicalismo em relação às teorias conspiratórias e tem também menos medo do vírus. Não confiam no governo, na imprensa, em organizações internacionais nem nos profissionais de saúde. Geralmente, são apoiadores da extrema direita e do movimento dos coletes amarelos.

De acordo com a pesquisa Ecoscope/OpinionWay/Les Echos realizada em meados de julho, os antivacinas representam 16% da população francesa.

“No momento, em razão da sua proporção, esse grupo radical pode impedir de atingir a imunidade coletiva”, afirmam Bargain, professor da Universidade de Bordeaux, e Jusot, da faculdade Paris-Dauphine, em um artigo de opinião publicado no Le Monde.

A obrigatoriedade do atestado de vacinação não teria impacto sobre essa população modesta, que frequenta menos cinemas, restaurantes ou museus, segundo os economistas autores do estudo.

Eles recomendam ao governo realizar uma campanha de informação mais focada nesse público, com a participação de pessoas em quem eles teriam confiança, como familiares.

As autoridades francesas reconheceram recentemente a possibilidade de a campanha de vacinação atingir um limite máximo. “Em todos os países que vacinam, a partir de um certo momento, vemos que é mais difícil convencer as pessoas que ainda não foram imunizadas”, declarou o porta-voz do governo, Gabriel Attal.

O governo francês teme uma radicalização dos antivacinas. Os serviços de inteligência alertaram, em uma nota, que quanto mais tempo os conflitos durarem, a exemplo do que ocorreu com os coletes amarelos, maior será o risco dos mais radicais assumirem o controle do movimento.

Dois deputados que fazem campanha para incentivar a vacinação receberam ameaças de morte.

O “passe sanitário” prevê ainda a possibilidade de apresentar um teste PCR negativo realizado em até 48 horas antes para ter acesso à maioria dos lugares. Desde o início da pandemia, esses testes são totalmente gratuitos na França e podem ser realizados de forma ilimitada.

Para acelerar a vacinação, o governo francês anunciou o fim da gratuidade dos testes (a data ainda não foi definida, isso deverá ocorrer a partir do final de setembro), exceto se houver prescrição médica, apostando que as pessoas não vão querer pagar um teste para ir ao restaurante ou ao cinema.

Segundo o governo francês, mais de 100 milhões de testes de covid-19 foram realizados no país desde março de 2020. A população francesa é de 67,4 milhões. Isso custou ao Seguro Social 2,2 bilhões de euros em 2020 (R$ 13,7 bilhões) e deverá custar € 4,9 bilhões em 2021 (R$ 30,5 bilhões).

Um estudo realizado por uma direção de estatísticas ligada a ministérios franceses, publicado na sexta-feira, ilustra a eficácia da vacinação e talvez possa convencer alguns céticos: as pessoas não vacinadas contra a covid-19 representam 85% dos hospitalizados na França e 78% das mortes provocadas pelo novo coronavírus.

Já os pacientes totalmente vacinados corresponderam a 7% das internações no período do estudo, entre 31 de maio e 11 de julho, e 11% das mortes (o restante havia recebido apenas uma dose). Naquele momento, 35% da população havia completado o ciclo de imunização e 45% não havia recebido dose alguma.

 

Fonte: UOL
Foto: Reuters