O brasileiro Rafael Monteiro está morando na Tailândia desde o início da pandemia e, no final de 2020, realizou uma viagem de carro entre Bangcoc e Chiang Mai. No longo trajeto entre as duas localidades, ele resolveu dormir e passar um tempo na cidade de Lopburi — e, ao chegar lá, se deparou com um cenário surreal: um centro urbano onde milhares de macacos circulam livremente pelas ruas.

“Fui para o centro de Lopburi para passear e fiquei assustado com a quantidade de macacos. São macacos grandes, com presas muito grandes, que assustam. Eles andam em grupos pelas fiações, pulam sobre os carros e sobre as motos e ficam revirando o lixo”, conta Rafael, dizendo que, antes da viagem, tinha ouvido falar que estes animais faziam parte da paisagem da cidade, mas que não fazia ideia da dimensão da coisa.

“Os macacos estão acostumados a ficar em lugares turísticos e a ganhar alimentos dos viajantes. Mas, durante o lockdown, com a falta de visitantes, eles começaram a se aproximar mais de locais que não são turísticos na cidade”, relata o brasileiro. “E há ainda várias sinalizações dizendo que precisamos tomar cuidado com bolsas, celulares e sacolas com comidas”.

Rafael conta que acabou não indo a alguns templos que estão entre os principais atrativos locais por causa dos bichos, que marcam grande presença nos gramados que cercam estes locais religiosos. “Fiquei com medo”, diz ele.

Escapar de encontros com os animais, entretanto, se mostrou uma tarefa impossível. Durante sua permanência em Lopburi, o brasileiro foi a um café e, na hora de ir embora do local, se deparou com um grupo de macacos parados na calçada, na frente do estabelecimento.

“Demorei um tempo razoável para conseguir sair do café. Saí de lá correndo e entrei no carro. E, ao dirigir pelo centro da cidade, eu ficava com medo de atropelar os macacos, porque eles estavam por toda parte”.

Crise na pandemia

Há tempos, os macacos fazem parte da paisagem de Lopburi: calcula-se que, na cidade, haja atualmente cerca de 60 mil habitantes humanos e, pelo menos, 4.500 símios.

Antes da pandemia, era tradição: muitos viajantes iam ao local especialmente por causa dos bichos e tiravam fotos presenteando-os com alimentos, principalmente ao redor do Phra Prang Sam Yot, templo de origem hinduísta (mas hoje budista) construído no século 13 e que é o principal cartão-postal local. O surgimento do novo coronavírus, porém, gerou uma queda drástica no número de visitantes na cidade — e, por consequência, a comida dada aos animais rareou

Isso fez com que ocorresse, a partir de março de 2020, uma espécie de “revolta dos primatas” neste centro urbano tailandês, com o aumento de invasões dos bichos em lojas e casas para pegar comida (em “saques” que, não raro, deixam ambientes destruídos).

Mas, além de medo, o brasileiro sentiu uma certa tristeza ao ver os animais vivendo no asfalto: a presença dos bichos lá, vale lembrar, ocorre porque Lopburi foi erguida sobre uma área florestal. Com o desmatamento da região, os macacos nativos da área acabaram transformando a cidade em sua fonte de alimentação.

Ilha célebre tem situação parecida

Uma das mais famosas ilhas da Tailândia, Phi Phi Don vive, ao que parece, uma situação parecida com a que ocorreu em Lopburi.

Por lá, a população de macacos também estaria ficando mais agressiva por causa da diminuição da oferta de comida gerada pela falta de turistas, que costumavam alimentar os bichos.

Morador de Phi Phi Don desde 2017 e sócio da agência de viagens Passeios em Phi Phi, que realiza tours por diversas localidades da Tailândia, o brasileiro Bruno Miguel conta que antes da pandemia, os macacos ficavam principalmente em áreas específicas da ilha, como Monkey Beach e Monkey Bay.

“Era difícil ver macacos no centrinho de Phi Phi. Tinha um bem gordo que ficava circulando pelas vendinhas e roubando comida, mas era bem raro vê-lo”.

 

O brasileiro afirma que agora, com pouquíssimas pessoas na ilha, os macacos têm aparecido com maior frequência no centrinho.

“Eles andam em gangues e atacam algumas vendinhas ou pessoas que estão andando na rua com comida. Isso já era normal na Monkey Beach, mas não no centrinho ou praias próximas”.

Bruno conta que uma colaboradora está com medo de fazer a trilha para a praia Long Beach, muito comum para todos que visitam a ilha, já que há uma parte do percurso que está tomada pelos macacos.

“Ela nos contou que, uma vez, se deparou com os bichos na orla e teve que caminhar pela água, já que eles estavam em grande número e agindo de maneira muito agressiva”, relembra.

Fonte: UOL
Foto: Jack TAYLOR / AFP